vivendo o luto em família




E quando pensamos que 2020 já tinha fodido com tudo, 
Uma péssima surpresa nos acomete.

Não sei o que dizer, mas eu vou tentar.
Mesmo com mente e sentimentos em desordem. 
Perdemos uma pessoa da família, alguém muito próximo e que vivia em nosso apartamento, bem no quarto ao lado do nosso. É triste passar pelo corredor e ver aquela porta fechada, porque ainda não conseguimos nos organizar para entrar lá e mudar o que precisa ser mudado, doar, jogar fora, presentear os que ficaram com uma - de muitas - lembranças.

Meu choro só veio após dez dias.
No instante em que aconteceu, eu virei pedra. Meu corpo todo reconstruído para que não quebrasse e eu conseguisse lidar com tudo. Tudo que veios após o último suspiro: tirar todo mundo do quarto, redirecionar as pessoas para o local que se sencontrava o corpo, ajudando que ele fosse carregado com a maior discrição possível, mesmo em um momento tão doloroso. O reconhecimento devastador no crematório.

Mas, depois da grande maioria da burocracia resolvida, o silêncio em casa era devastador. Para falar a verdade, ainda é. Não importa que ele esteja com o TV ligada ou eu com meu Spotify aberto. Tudo é silêncio e tudo é ensurdecedor. Não importa que ela tenha passado a maior parte do tempo no quarto vendo jogos e séries, parece que ela está faltando em todo lugar.

Tenho tentado organizar a casa freneticamente, desde que tudo aconteceu.
Uma amiga - Clara - disse que pode ser uma ferramenta usada como que para tentar organizar o caos que ando sentindo.
E eu cito:

"[15:25, 26/12/2020] Clara: Acho que pode ser porque cuidando de casa é como se tivesse cuidando de uma extensão sua
[15:25, 26/12/2020] Clara: Claro que você vai muito além disso
[15:25, 26/12/2020] Clara: Mas a casa é o seu ambiente, querendo ou não, e aí acaba sendo uma extensão da sua existência no mundo"

Eu sei que o tempo vai amenizar as coisas, que os choros com soluço vão diminuir, que a dor será substituída por lembranças de saudades. Vamos entrar naquele quarto - quando estivermos prontos -, mudar os móveis de lugar, espalhar essência de lavanda e incensos. Receberemos visitas, traremos luz e orações e, quem sabe, no tempo certo, aquele quarto não abrigue um novo serzinho?

Nada apagará as lembranças.
Nada substituirá a dor que sentimos e sentiremos,
Mas precisamos tentar seguir em frente, eventualmente.

E o que eu mais queria dizer é que, com essa perda, 
Nasceu uma nova mulher,
Uma esposa diferente e devota ao seu marido, que compreende a imensidão do matrimônio e do amor, mais do que nunca - entendendo a parte da canção que diz ao seu amor "si supieras que puedo morir por ti";
Segura de que cresceu - e que faria qualquer coisa para retirar toda a dor do seu amado e carregá-la,
Pois nada doi mais do que ver quem se ama sorfrer -,
De que é capaz de sugurar o que vier.

Agora vive em mim um ser humano forte,
Capaz,
Sem medos,
Pronta para realizar vida em seu devido tempo.

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