terapia: confissões de um relacionamento abusivo




Rio de Janeiro,
17 de Julho de 2020.

Hoje foi um dia difícil. A minha terapia vinha pegando, cada vez mais, estradas com boas vistas. Um buraco ou outro no meio do caminho, mas nós sempre soubemos parar, consertar e retomar o caminho. Mas, ultimamente, venho como um trem desgovernado.

Precisei parar de passar por cima de tudo e me focar em colocar o trem nos trilhos. Em outras palavras, precisei recomeçar a falar de todo abuso que passei, desde a infância até os vinte e poucos. Não só dar uma pincelada nos fatos, mas falar de verdade. De cada detalhe que lembrar.

E olha, não posso te enganar, talvez vá ser a maior dor emocional que você vá sentir. Viver tudo aquilo é horrível, mas reviver os detalhes na nossa memória e ouvir em voz alta, a sua voz, é ainda pior. É ouvir aquela voz novamente, é se sentir presa e agoniada. É sentir dor e questionar todos os motivos.

Eu não merecia passar por tudo aquilo, eu era só uma criança - que foi onde paramos. Com cinco anos eu já tinha enjoos emocionais que duraram todo o tempo em que morei com meus pais. Éramos (eu tenho um irmão) colocados de joelhos, de castigo com pedras, com milhos e não podíamos levantar até que estivéssemos com marcas. Apanhavamos quase todo fim de semana - com cintos ou borracha de moto. Sem razão. Não que haja razão para essa atrocidade.

Eu já levei uma surra nua, com onzeanos e um belo tapa na cara. Aos treze, sem motivo algum, meu abusador saiu de um quarto e entrou no meu, me dando outro tapa na cara. Eu não havia feito nada. Isso sem ainda contar os abusos psicológicos. Éramos, semanalmente, ameaçados de sermos mandados embora de casa. Da nossa casa. Da casa dos nossos pais. 

Eu coloquei tudo isso em uma caixinha escrito não abrir, mas de tanta pressão, ela precisou ser aberta. Estava escapando pelos lados. Não estava me deixando viver bem. As amarras de todas as consequências, uma hora se mostra. Me sentia incapaz de ser amada, insegura, burra... tudo que fora dito a mim ao longo dos anos. Então precisei - e preciso - falar, poprque só falando a gente ressignifica, a gente supera e aquilo para de nos bater.

E se eu chorei?
Até calarem minhas lágrimas. 
E esta foi apenas a sessão um.

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