RELACIONAMENTO ABUSIVO: Às Vezes Você Precisa Arrancar o Curativo de Uma Vez

A fotógrafa e editora ressalta que fez o melhor que pode com a foto e o trabalho com a máquina de escrever.
Agradecemos sua compreensão.


Relacionamento Abusivo,
Por Fernanda Campos,
Psicóloga formada pela Universidade Federal de São João Del-Rei

Você acorda antes do despertador tocar. Diz que é costume. Mas é porque essa é a hora em que a ferida mais te incomoda. Ela coça. Você não se mexe. Fica assim, um minuto olhando pro teto, perguntando se precisa mesmo sair da cama. Precisa! Você já parou muita coisa na sua vida por causa dele, não pode abandona o trabalho.

Você faz o café e arruma a mesa e só depois que está com o rosto lavado e dentes escovados é que ele se levanta. Você sempre espera um sorriso, um obrigado, um bom-dia. Nenhuma dessas coisas vem. Ele apenas se senta, arrastando a cadeira de madeira no chão de porcelanato, mesmo sabendo que o barulho ter faz arrepiar. A ferida coça de novo. Você finge que não vê. É mais fácil.

Ele não é grosso. Só não há palavras e carinhos. Homens são assim mesmo. Sagitarianos são assim mesmo. É que você é muito carente. É que o patrão dele é insuportável. É que a mãe dele não o deixa em paz. É que o pai nunca o abraçou, também. É sempre por causa dos outros. É por isso que você continua aí.

Suas amigas dizem que o relacionamento já deu o que tinha que dar, enquanto você tenta não coçar a ferida que incomoda. Houve um tempo que você trocava o curativo toda hora. Mas era chocante demais observar como era por baixo da casca. Parecia que o pus e o sangue nunca ia embora, por mais que você tivesse cuidado. E você tinha. Você sempre teve muito cuidado com tudo. Sua mãe sempre brinca que demorou a dar o primeiro passo porque precisou conhecer o lugar todo primeiro antes de arriscar. Ela diz isso de jeito bondoso. Ele não. Ele te chama de covarde.
E você acredita.

Agora você só tira o curativo uma vez ao mês, com muito cuidado. Faz uma careta pela situação catastrófica que tudo ficou. Derrama umas lágrimas e espera que tenha um poder de fênix. Não tem. Só piora. Porque lágrima é salgada e arde. Arde muito. Arde tanto que você acha que vai perder o chão. Tudo escurece quando ele fala que você é fresca. Que é uma incompetente. Que não serve nem pra dona de casa. Que ninguém te suporta. Que sua mãe só tem pena de você e é por isso que nunca liga. Que suas amigas fingem porque é você quem não as deixa em paz. Ele não grita. Nunca gritou. Às vezes você pensa que seria melhor se gritasse.

É a mansidão que destrói, não o resto. Não houve sacudidas, tapas, socos e chutes. Ele nunca bateu. Mas destruiu. Cada pedacinho esperançoso do começo da relação. Cada tentativa de fazer aquilo dar certo. Toda vez que você recomeça. E nunca funciona. Porque você nunca faz nada que ele espera. Porque nunca é o bastante. Porque você sempre erra. Porque você é burra. Porque você é sempre a culpada. Sempre. Sempre. Sempre. Sempre.

Você parou de reclamar com as amigas – elas não entendem que é só o jeito dele. Parou de reclamar para sua mãe – ela não entende que é jeito seu. Você parou de reclamar até para si mesma. Se olha no espelho e não se reconhece. Cola um sorriso no rosto e fica no banheiro até acreditar que quando disser que está tudo bem, está mesmo. Não está. Mas uma mentira contada mil vezes acaba se tornando verdade. Foi assim que ele te convenceu que você nunca ia arranjar alguém melhor do que ele, não foi?

Sabe que precisa fazer alguma coisa, mas não consegue. Saber é uma coisa, tomar uma decisão sozinha é outra completamente diferente. Você não está pronta. Não se sente segura. E se não tentou o suficiente? E se é mesmo culpa sua? Não devia ter dito a ele que a blusa não combinava com a calça. Não devia ter se ressentido que vocês fizeram aniversário e ele nem se lembrou. Não devia ter perguntado como foi o dia dele, dava para saber que estava estressado só pelo jeito com que bateu a porta ao entrar. O café ficou mesmo ruim. O pão estava mesmo duro. Seu coração continua sangrando. Ele nunca te amparou.

Você tem notícias para contar. Mas não tem ninguém para ouvir. Se for boa, ele vai dizer que é besteira. Se for ruim, ele não vai te dar suporte. Suas amigas perguntam qual o sentido de ficar com alguém que não é companheiro. Você nunca entendeu bem o sentido do amor. É por isso que fica.

Um dia, vai querer correr da cama, ao invés de ficar toda manhã encarando o teto por mais tempo do que o saudável. Mas não hoje. Não agora. Agora é melhor fingir que não tem que trocar o curativo. Você sabe que está insistindo num erro. Você sabe que é um erro. Mas não tem coragem de mudar. Não tem coragem de nada. Ele te tirou tudo o que tinha. Ninguém entende que ficar num lugar que odeia é mesmo desconfortável. Mas é melhor do que se deslocar. Mudar dá muito trabalho e você não tem força. Não tem capacidade. Não tem vontade. Não tem nada. É tudo dele. Ele te roubou tudo. É por isso que você não vai, para não perder a única coisa que acredita que lhe sobrou.

Alguém te sugeriu terapia. Você disse não, obrigada, estou bem. O machucado cresce. Te sufoca. Enquanto você se convence de que é melhor estar onde está. Mesmo que seja desconfortável. É onde você conhece. É menos assustador do que o mundo de possibilidades que se abre, desconfortável, também, se deixar tudo para trás.

Não sabe como deixou chegar a esse ponto. Tira o curativo mais uma vez, mas se assusta com o estado com que tudo está. E aí tampa de novo. Porque não quer ver. Porque é mais fácil não ver. Porque colar um sorriso no rosto e fingir que está bem é muito mais fácil do que encarar a realidade. Às vezes o melhor jeito que se tem de lidar com a dor é arrancar o
band-aid de uma vez só. Vai doer, mas passa. Passa mais rápido do que trocá-lo por outro, mais novo e mais limpo. Uma hora você vai aprender isso. Sua mãe e suas amigas só esperam que aconteça antes que ele destrua tudo de bom que ainda resiste dentro de você.

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